A propósito de “The Green Lie” ( Werner Boote, 2018)

Das maneiras de mentir não mentindo convencionalmente. Dizer um truísmo como se não o fosse: “a sustentabilidade é a nossa estratégia”, “é cada vez mais importante para a nossa empresa”, “é um valor absolutamente crucial para o crescimento da nossa empresa”, etc. Não vale a pena mencionar os autores das frases. Quando não é o truísmo, é a ambiguidade: definições de uma vagueza tal que permitam interpretações entre si incompatíveis, contraditórias, é uma forma deliberada de não dizer a verdade ou, em suma, de mentir. Por exemplo, quando se define sustentabilidade como equilíbrio entre economia, pessoas e ambiente, como se ouve a um representante das grandes indústrias do óleo de palma no documentário “A Mentira Verde”. Com este engenhoso equilíbrio entre economia, pessoas e ambiente estão, pelo contrário, a ser sugeridas maneiras de dar por justificável o sacrifício ambiental – não podemos esquecer a economia … muito menos as pessoas. Como se o equilíbrio se achasse entre estes três factores, como se não estivessem os três em ambos os pratos de outro equilíbrio. Obviamente, esta é uma definição de equilíbrio que descompromete, exactamente o contrário de um equilíbrio que obrigue a compromissos. A retórica até ganha sofisticação quando se evoca “cultura” de sustentabilidade, “mudança” de paradigma, “transição” energética. Os “head” das grandes empresas vendem a ideia de que são elas as salvadoras do planeta, que o futuro das nossas vidas está nas mãos delas, da sua capacidade de inovar, do capital que mobilizam nesse sentido. E de nós nada é esperado além de consumirmos verde, voluntariamente, convictamente, cada escolha uma escolha profunda, feita tão credulamente como se seguíssemos profetas que, no entanto, no essencial, veem nas nossas consciências atormentadas uma oportunidade de negócio. Talvez por isso se insista tanto em consumo consciente – consciência que exigiria de cada um o saber e a disponibilidade de um activista – quando importaria, sobretudo, regulação política. Andamos a ser ludibriados a respeito do que é cada um fazer a sua parte. As escolhas pessoais de consumo que cada um faz – vejam lá as escolhas conscientes que eu faço, percebam o seu sentido e sigam o meu exemplo! – podem ser muito éticas, mas falta-lhes política, acção colectiva com os olhos postos na regulação legal. Evidentemente, este outro desequilíbrio – demasiado vontade de ética para escassa vontade de política – é resultado dos pressupostos individualistas, cada um por si mesmo na sua liberdade individual, e de primado do privado sobre o público e a interdependência, na sociedade contemporânea. Simplesmente, estes pressupostos são muito mais parte do problema do que de uma solução.

andré barata

Leave a comment

Your email address will not be published. Required fields are marked *